Aymoré Alvim. AMM, SMHM.
Há
algum tempo, após uma palestra sobre “Medicina, a Arte de curar”, um aluno se
dirigiu a mim:
- Professor, o que é mesmo Medicina?
- Ah! Você não entendeu nada do que
eu falei.
- Não diga isso, professor, eu
entendi tudinho. O caso é que o senhor falou de coisas que eu nunca tinha
ouvido e me embaralhei todo. Afinal, quem é que cura é a Medicina ou o Médico?
- Sozinhos nenhum. É preciso haver a
aceitação, o querer tratar-se por parte do paciente, ou seja, é necessário que
o paciente queira ficar curado senão, nada feito.
- Mas professor, quem cura não é o
médico? Caso contrário, por que ficar estudando tanto tempo?
Primeiramente, você deve ter
entendido quando lhes falei que cada um de nós Homo sapiens é uma unidade
integrada por (4) quatro planos bem definidos: Biológico ou físico, Psíquico,
Social e Espiritual. Em qualquer um destes planos podem ocorrer agravos que repercutem no plano físico, ou seja, no corpo.
-
Como assim?
-
Você pode ser portador de um sentimento de culpa. Insônia, irritabilidade,
depressão são manifestações visíveis dessa culpabilidade. O médico as
identifica, mas a causa ele só saberá se o paciente lhe contar. Ocorre que o
paciente não confia no médico, por isso não lhe conta a causa de todas essas
manifestações e nem o médico procura despertar no paciente a credibilidade para
que lh’as relate. Mesmo que o médico o medique ele não será curado, pois a
medicação vai atingir só os efeitos, mas a causa continua lá.
-
Complicou tudo outra vez. Lá onde, professor?
-
No plano espiritual. É lá que surgem os sentimentos de culpa que se manifestam
no plano físico. O médico não foi instruído para agir nesse plano. Logo, nesse
caso, o mediador da cura não será o médico, mas sim um ente religioso a cuja
confissão pertença o paciente.
-
Mas não é sempre o médico o agente do processo de cura?
-
A História nos diz que nunca foi. No Paleolítico superior, por volta dos 50 mil
a 40 mil anos atrás, quando se conclui que surgiu o que chamamos de Medicina
Arte, os agravos ou as doenças eram concebidos como castigo dos deuses em
represália a alguma falta ou ilicitude praticada que os desagradou. Nesse caso,
a comunidade identificava entre os seus membros alguém que pudesse se comunicar
com esses grandes espíritos ou deuses para suplicar-lhes a cura desse doente ou
da comunidade.
-
Eram, então, os xamãs, pajés, feiticeiros, sacerdotes, curadores. E o senhor
quer colocar os médicos no meio dessa turma?
-
Eu não. Ele já está.
-
Como assim?
-
Vejamos. Eram os deuses que detinham a causa das doenças, logo, somente eles
sabiam curá-las. Como faziam isso? Através desses entes de cura ou desses
mediadores aos quais os deuses ensinavam a arte de curar para que eles
completassem a ação.
-
Complicou de novo um pouco, mestre. Mas, tô no caminho.
-
Muito bem. Continue seguindo esta linha de raciocínio. Quando a medicina
paleolítica ou primitiva passou pela Grécia dos filósofos, 500 a 350 anos a.C.,
o senhor Hipócrates deu uma nova conotação à etiologia das doenças, um cunho
mais natural. Tirou a causa primária desses agravos dos caprichos dos deuses e
a atribuiu a uma ruptura no equilíbrio do organismo com o seu meio externo ou
interno. Para que esse equilíbrio voltasse a se restabelecer era necessário
preparar agentes que tivessem bom conhecimento tanto dos indivíduos quanto dos
meios com os quais interagem.
-
Como assim?
-
Veja. Se esses entes, inclua aqui o médico, não foram o causador do agravo ou
do desequilíbrio, com certeza não poderiam restabelecê-los conhecendo somente
os efeitos.
-
E aí, quem é agora o detentor do saber?
-
A Ciência Médica. Ela é que vai instruir o médico como proceder para recuperar
esse desequilíbrio.
-
Estou entendendo.
-
Prossigamos. O médico por tradição histórico-cultural está na linha de frente
do processo de cura. Independente donde ocorra o agravo, as suas manifestações
repercutem sempre, no plano biológico ou físico. Portanto, cabe a ele, num
primeiro momento, buscar e analisar os sinais ou sintomas manifestados, no
plano físico, por esses agravos. O estudo da Semiologia ou dos sinais clínicos
é para isto. Não esqueçamos que ao longo da história a arte de curar sempre foi
tida como algo místico ou exotérico.
-
Certo, professor..
-
Pois bem, após o estudo dos sinais, cabe ao médico interpretar com os dados
colhidos no exame físico e na história do paciente as possíveis causas
determinantes do agravo. É o diagnóstico (conhecer através de). A partir daí
poderá prescrever o que a ciência lhe propuser, nestes casos (Receituário) ou
encaminha-lo a quem poderá o fazer. Por isso, o exaustivo período de seis anos
de preparação não basta. O médico para o
bom exercício dos seus haveres deve estudar enquanto praticar a arte de curar
ou a medicina.
-
Mestre, esse finzinho eu não captei muito bem.
-
Vamos, então, tentar captar. O médico não detém o monopólio da arte de curar
nem do saber médico. Ele é apenas o mediador (do latim Medicus), a ponte que se
estabelece entre o paciente e as Ciências Médicas que são o conjunto de saberes
e experiências produzidos e acumulados, ao longo dos tempos, que nos são legados pelas gerações que nos
antecederam. Cabe a nós, no nosso momento histórico, interpretá-los, usá-los e
agregarmos as nossas experiências para enriquecê-los e atualizá-los para as
gerações futuras.
-
Por isso, o exercício da arte de curar, em qualquer dos quatro planos referidos,
é um desafio que exige do médico sabedoria para conduzir-se, no exercício da
profissão; humildade para saber até onde os seus conhecimentos o permitam
chegar e amor, solidariedade, compaixão para se colocar sempre, no lugar do seu
paciente, com a sua fragilidade, insegurança e seus medos. A Medicina, desde os
primórdios, foi concebida com um ato de amor, misericórdia. E se não o for não
é medicina.
-
Ah! Professor, maneiro esse negócio de medicina. Beleza. Quer dizer que ser
médico é vaidade e ser Medicus é beleza pura?.
- É isso aí, meu. Beleza! Vi que
entendeu tudo.
E nos despedimos.