sábado, 25 de julho de 2015

MEDICUS E MÉDICOS.

Aymoré Alvim. AMM, SMHM.

Há algum tempo, após uma palestra sobre “Medicina, a Arte de curar”, um aluno se dirigiu a mim:
            - Professor, o que é mesmo Medicina?
            - Ah! Você não entendeu nada do que eu falei.
            - Não diga isso, professor, eu entendi tudinho. O caso é que o senhor falou de coisas que eu nunca tinha ouvido e me embaralhei todo. Afinal, quem é que cura é a Medicina ou o Médico?
            - Sozinhos nenhum. É preciso haver a aceitação, o querer tratar-se por parte do paciente, ou seja, é necessário que o paciente queira ficar curado senão, nada feito.
            - Mas professor, quem cura não é o médico? Caso contrário, por que ficar estudando tanto tempo?
            Primeiramente, você deve ter entendido quando lhes falei que cada um de nós Homo sapiens é uma unidade integrada por (4) quatro planos bem definidos: Biológico ou físico, Psíquico, Social e Espiritual. Em qualquer um destes planos podem ocorrer agravos que  repercutem no plano físico, ou seja, no corpo.
- Como assim?
- Você pode ser portador de um sentimento de culpa. Insônia, irritabilidade, depressão são manifestações visíveis dessa culpabilidade. O médico as identifica, mas a causa ele só saberá se o paciente lhe contar. Ocorre que o paciente não confia no médico, por isso não lhe conta a causa de todas essas manifestações e nem o médico procura despertar no paciente a credibilidade para que lh’as relate. Mesmo que o médico o medique ele não será curado, pois a medicação vai atingir só os efeitos, mas a causa continua lá.
- Complicou tudo outra vez. Lá onde, professor?
- No plano espiritual. É lá que surgem os sentimentos de culpa que se manifestam no plano físico. O médico não foi instruído para agir nesse plano. Logo, nesse caso, o mediador da cura não será o médico, mas sim um ente religioso a cuja confissão pertença o paciente.
- Mas não é sempre o médico o agente do processo de cura?
- A História nos diz que nunca foi. No Paleolítico superior, por volta dos 50 mil a 40 mil anos atrás, quando se conclui que surgiu o que chamamos de Medicina Arte, os agravos ou as doenças eram concebidos como castigo dos deuses em represália a alguma falta ou ilicitude praticada que os desagradou. Nesse caso, a comunidade identificava entre os seus membros alguém que pudesse se comunicar com esses grandes espíritos ou deuses para suplicar-lhes a cura desse doente ou da comunidade.
- Eram, então, os xamãs, pajés, feiticeiros, sacerdotes, curadores. E o senhor quer colocar os médicos no meio dessa turma?
- Eu não. Ele já está.
- Como assim?
- Vejamos. Eram os deuses que detinham a causa das doenças, logo, somente eles sabiam curá-las. Como faziam isso? Através desses entes de cura ou desses mediadores aos quais os deuses ensinavam a arte de curar para que eles completassem a ação.
- Complicou de novo um pouco, mestre. Mas, tô no caminho.
- Muito bem. Continue seguindo esta linha de raciocínio. Quando a medicina paleolítica ou primitiva passou pela Grécia dos filósofos, 500 a 350 anos a.C., o senhor Hipócrates deu uma nova conotação à etiologia das doenças, um cunho mais natural. Tirou a causa primária desses agravos dos caprichos dos deuses e a atribuiu a uma ruptura no equilíbrio do organismo com o seu meio externo ou interno. Para que esse equilíbrio voltasse a se restabelecer era necessário preparar agentes que tivessem bom conhecimento tanto dos indivíduos quanto dos meios com os quais interagem.
- Como assim?
- Veja. Se esses entes, inclua aqui o médico, não foram o causador do agravo ou do desequilíbrio, com certeza não poderiam restabelecê-los conhecendo somente os efeitos.
- E aí, quem é agora o detentor do saber?
- A Ciência Médica. Ela é que vai instruir o médico como proceder para recuperar esse desequilíbrio.
- Estou entendendo.
- Prossigamos. O médico por tradição histórico-cultural está na linha de frente do processo de cura. Independente donde ocorra o agravo, as suas manifestações repercutem sempre, no plano biológico ou físico. Portanto, cabe a ele, num primeiro momento, buscar e analisar os sinais ou sintomas manifestados, no plano físico, por esses agravos. O estudo da Semiologia ou dos sinais clínicos é para isto. Não esqueçamos que ao longo da história a arte de curar sempre foi tida como algo místico ou exotérico.
- Certo, professor..
- Pois bem, após o estudo dos sinais, cabe ao médico interpretar com os dados colhidos no exame físico e na história do paciente as possíveis causas determinantes do agravo. É o diagnóstico (conhecer através de). A partir daí poderá prescrever o que a ciência lhe propuser, nestes casos (Receituário) ou encaminha-lo a quem poderá o fazer. Por isso, o exaustivo período de seis anos de preparação  não basta. O médico para o bom exercício dos seus haveres deve estudar enquanto praticar a arte de curar ou a medicina.
- Mestre, esse finzinho eu não captei muito bem.
- Vamos, então, tentar captar. O médico não detém o monopólio da arte de curar nem do saber médico. Ele é apenas o mediador (do latim Medicus), a ponte que se estabelece entre o paciente e as Ciências Médicas que são o conjunto de saberes e experiências produzidos e acumulados, ao longo dos tempos,  que nos são legados pelas gerações que nos antecederam. Cabe a nós, no nosso momento histórico, interpretá-los, usá-los e agregarmos as nossas experiências para enriquecê-los e atualizá-los para as gerações futuras.
- Por isso, o exercício da arte de curar, em qualquer dos quatro planos referidos, é um desafio que exige do médico sabedoria para conduzir-se, no exercício da profissão; humildade para saber até onde os seus conhecimentos o permitam chegar e amor, solidariedade, compaixão para se colocar sempre, no lugar do seu paciente, com a sua fragilidade, insegurança e seus medos. A Medicina, desde os primórdios, foi concebida com um ato de amor, misericórdia. E se não o for não é medicina.
- Ah! Professor, maneiro esse negócio de medicina. Beleza. Quer dizer que ser médico é vaidade e ser Medicus é beleza pura?.
            - É isso aí, meu. Beleza! Vi que entendeu tudo.

E nos despedimos.